Minha maior reclamação é a falta de tempo. Estou sempre contra o tempo!

Chegaram até mim duas reportagem muito interessantes sobre o assunto: (Fonte: super.abril.com.br)

Está se sentindo sem tempo?

Talvez o problema esteja no excesso de tempo livre

Você vive reclamando que a sua vida está uma correria? Um novo estudo mostra que, talvez, o problema esteja justamente no excesso de tempo livre – ou no fato de você não estar sabendo usá-lo para fins realmente importantes.

Já falei aqui sobre como a percepção do tempo é algo subjetivo e depende de muitas variáveis (Por que às vezes o tempo voa e outras vezes se arrasta?). Agora, um estudo de Cassie Mogilner, especialista em percepção do tempo da Universidade de Wharton, na Pensilvânia, sugere outro fator que influencia isso: quando nos ocupamos em tarefas altruístas, temos a sensação de que o tempo está correndo mais devagar.

Para o estudo, Mogilner e colegas das universidades de Harvard e Yale interromperam mais de 200 alunos em uma aula e pediram que completassem diferentes tarefas por cinco minutos. Alguns tinham que riscar a letra “e” em páginas de texto, o que representou, para os cientistas, uma tarefa de desperdício de tempo. Outros tiveram que escrever uma carta para animar uma criança gravemente doente.

Depois, cada um teve de responder perguntas que envolviam a sua percepção do tempo futuro. Resultado: quem escreveu a carta (ou seja, se empenhou em uma atividade generosa e altruísta) foi mais propenso a concordar com afirmações como “meu futuro parece infinito para mim”, indicando a sensação de uma passagem do tempo mais lenta.


Imagens: Getty Images

Você deve está pensando: “é, mas o tempo provavelmente correria de um jeito diferente para mim se eu também tivesse que ficar riscando a letra ‘e’ em um texto”. Para não restar dúvidas, os pesquisadores fizeram outro teste em que a tarefa de desperdício de tempo era prazerosa.

Neste, um grupo de voluntários teve um período de tempo livre para fazer o que quisessem, enquanto o outro teve de usar o tempo para fazer algo em benefício de alguém. O resultado foi o mesmo, com um adicional: o grupo dos altruístas reportou anda um senso de poder pessoaleficácia maiores que o outro.

Para terminar, foi feito mais um teste, similar ao primeiro: estudantes foram interrompidos durante a aula e informados de que teriam de ajudar um aluno com dificuldades, editando um texto que seria enviado para a faculdade em que estava tentando entrar. Mas só parte deles fez isso. Os outros foram informados na última hora de que a ajuda não seria mais necessária e estavam, portanto, livres para fazer o que quisessem com o seu tempo extra.

Depois, eles tiveram que descrever sua percepção do tempo, dizendo quantos minutos acharam que haviam tido (seja para ajudar o aluno, seja para gastar com o que quisessem) e quanto tempo estavam dispostos a comprometer ajudando outros.

Os que haviam ajudado a editar o texto não só acharam ter tido mais tempo para a tarefa do que aqueles que ficaram fazendo outras coisas, como também estavam mais dispostos a usar do seu tempo de lazer em favor de outros na semana seguinte.

Menos é mais

Sim: ironicamente, aqueles que desfrutaram de mais tempo livre manifestaram a sensação de ter tido menos tempo disponível.

Cassie Mogilner acredita que ajudar os outros tenha feito com que os voluntários sentissem que podiam realizar mais em menos tempo (os testes mostraram que eles de fato se sentiam mais eficazes), e isso parece esticar o tempo em nossas mentes.  Já tentou fazer um teste parecido com os dessa pesquisa para ver se funciona?

Por que às vezes o tempo voa e outras vezes se arrasta?

Você está assistindo à final do campeaonato num estádio de futebol e seu time está ganhando. Falta pouco para o jogo acabar, mas um gol do adversário pode estragar tudo. Você está à beira de um ataque de nervos porque aqueles minutos finais não terminam nunca. Enquanto isso, a torcida do outro time alimenta a esperança de um empate, mas o tempo está passando depressa demais e nada desse gol acontecer.

O lugar e a quantidade de minutos decorridos são os mesmos, mas os sentimentos das torcidas são bem diferentes e a forma como elas sentem o tempo passar também. Segundo o professor William Gomes, do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), esta situação ilustra bem como a percepção do tempo pode variar de pessoa para pessoa e de acordo com a situação.

Ele explica que, para a psicologia, o tempo “é a medida dos nossos julgamentos. O seu tempo psicológico não corresponde ao cronológico. Ele corresponde ao estado momentâneo de sua consciência”, completa. Então sim, é totalmente possível que o tempo voe ou se arraste em alguns momentos. Mas por que isso acontece?

Quando o tempo voa

Segundo o professor William, nosso tempo vai depender de como estamos nos sentindo, bem como da nossa atitude em relação ao passado e ao futuro. Por exemplo: quando está em jogo alguma coisa que te desafie e direciona sua atenção para o futuro, as horas podem passar voando. Tipo uma entrevista de emprego ou uma prova importante como o vestibular. Tudo por causa da ansiedade.

O professor José Lino Oliveira Bueno, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP em Ribeirão Preto, é referência nos estudos sobre o tempo, tanto no Brasil quanto lá fora. Ele descobriu que estímulos vindos da arte – principalmente música e artes plásticas – podem influenciar nossa percepção temporal e revelar outros motivos para essas distorções.

Um estudo orientado por ele expôs voluntários a trechos musicais curtos e pediu que informassem qual havia sido a sua duração. O resultado revelou que, quando a música terminava em uma tônica (como a dos Pôneis Malditos), a estimativa era próxima do real. Mas eles tinham a impressão de que o tempo havia passado mais depressa quando a música terminava distante da tônica. “O participante tem uma experiência de algo inacabado e subestima a duração do tempo do estímulo apresentado”, explicou José Lino.

Quando o tempo se arrasta

Quanto mais uma coisa te incomoda, mais o tempo tende a se arrastar. O professor William explica que um momento em que a pessoa precise lidar com algo que a tenha perturbado gravemente no passado provavelmente será mais longo, porque fará com que ela fique remoendo lembranças dolorosas e reavaliando suas atitudes.

Pesquisas têm relacionado a duração de um evento com a quantidade de energia gasta pelo cérebro naquele momento.  Em outras palavras, o seu cérebro está trabalhando mais nessas horas, o que dá a impressão de que o tempo está passando mais devagar. Para ilustrar: quando você olha uma foto da casa em que passou sua infância, há muito mais coisa acontecendo em sua mente do que quando você vê uma foto que não lhe diz nada, mesmo que seja exposto a elas pelo mesmo período de tempo. A mesma coisa quando você está assistindo a um filme ruim que não acaba nunca – sua mente começa a trabalhar mais para encontrar meios de se distrair.

Excitação e perigo também podem fazer com que o tempo pareça passar mais devagar. Em um experimento conduzido no ano passado, pesquisadores da Universidade da Califórnia pediram a voluntários que estimassem por quanto tempo um ponto aparecia numa tela, ao mesmo tempo em que analisavam sua atividade cerebral por meio de ressonância magnética. Algumas vezes, o ponto aumentava de tamanho, dando a impressão de que estava se aproximando, e outras vezes diminuía, parecendo se afastar. No primeiro caso aconteceu algo curioso: os participantes superestimavam o tempo em que o ponto aparecia, o que não acontecia quando o ponto dava a impressão de estar se afastando. Nesse momento em que o tempo parecia passar mais devagar, estavam mais ativas as áreas cerebrais relacionadas a autojulgamentos e reflexões – o cérebro estava ocupado pensando sobre si mesmo, seus planos e atividades. Mas ativaram-se também áreas relacionadas à excitação, perigo e sentimentos negativos. Faz sentido: algo se aproximando de você pode ser ameaçador; assim, seu cérebro precisará se preparar de alguma forma e buscar recursos para reagir, o que o fará com que trabalhe mais – e, assim, o tempo parece passar mais devagar. Nada aconteceu quando o ponto se afastava, pois nesse caso foi ativada no cérebro a região associada à sensação de segurança – um objeto se afastando não é ameaçador, o que dá a permissão para que você relaxe.

Os fatores emocionais na percepção do tempo

Tempo também tem a ver com emoção. Em um estudo do professor José Lino, voluntários ouviram trechos da obra musical “Quadros de uma Exposição”, de Modest Mussorgsky, mas apenas metades deles receberam informações de alto teor emocional sobre a composição dessa obra (ela foi feita homenagem a um grande amigo de Mussorgsky que havia falecido). Quem sabia sobre o drama sentiu o tempo passar mais devagar.

Segundo outro estudo, o andamento das músicas também influencia a percepção temporal. Foram compostas músicas nos sete modos eclesiásticos musicais (escalas com diferente distribuição de intervalo de notas). Trechos com mesma duração, mas diferente modo musical foram percebidos como tendo duração diferente. “Cada modo pode ser associado a estados emocionais diferentes (uma música lenta é associada à tristeza; se aumentamos o andamento, ela passa a ser percebida como alegre), o que indica uma relação possível entre estado emocional e tempo subjetivo”, afirmou José Lino. “Essas alterações de tempo têm sido explicadas em função da complexidade dos estímulos a que a pessoa se expõe, das expectativas geradas por esses estímulos ou do grau de atenção produzido pela experiência da audição musical”, explica.

Dá para controlar a forma como sentimos o tempo passar?

Dá, mas você vai precisar de uma boa dose de concentração. “Controlar o tempo depende da sua capacidade de dirigir a consciência para os objetos e colocar as suas preocupações em suspenso”, disse o professor William. “A filosofia oriental, com a prática da meditação, também ajuda, pois possibilita à pessoa ausentar-se ou afastar-se do tempo”, completa. Mas esses recursos são difíceis e limitados – e a correria do dia a dia não ajuda. Se você tem uma tarefa complexa e pouco tempo para executá-la, por exemplo, não vai encontrar soluções milagrosas. Ainda mais porque o estresse e a ansiedade que essa situação pode causar podem acabar agindo para que você “trave” e fazem o tempo passar ainda mais depressa. A concentração vai ajudar, mas não te dá superpoderes.

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